Projeto monitora lobos que vivem na região de parque na Serra da Canastra
Publicado por: Rogério Cunha. em 14 de dezembro de 2014.

Fonte: G1

Plano de conservação faz pesquisa e rastreamento por satélite dos lobos.
Trabalho é feito com animais que circulam dentro e no entorno do parque

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Veterinários e biólogos desenvolvem um trabalho de pesquisa e rastreamento por satélite dos lobos que vivem dentro e no entorno do Parque Nacional da Serra da Canastra, em Minas Gerais. Ao todo, são 58 animas com os passos acompanhados pelo Plano de Ação Nacional para a Conservação do Lobo-Guará

Entre os cães selvagens, o lobo-guará é o maior da América do Sul. A família do guará se distribui pela Argentina, Paraguai, Bolívia e Peru, região onde são chamados em guarani de ‘aguará guazú’, que significa ‘grande cachorro vermelho’. No Brasil, a preferência da espécie sempre foi o cerrado e a Serra da Canastra está sempre rodeado de lobos.

Em uma comparação com o jeito mineiro mais contido e resguardado, pode-se dizer que a fauna da Canastra não é exibida como a do Pantanal brasileiro, por exemplo, ou das savanas africanas. Os animais ficam entocados, principalmente, durante o dia. Na vasta imensidão, parece até que não há bicho nenhum, mas o ambiente está povoado.

A estimativa não-oficial é de que na Serra da Canastra vivam cerca de 100 lobos-guarás. A espécie não é de sair ao sol ardente. O animal prefere esperar o fim da tarde e deixar o sol se pôr para fico ativo. Ele atravessa a noite andando, cheirando e comendo fruta ou bicho.

Dada a vulnerabilidade da espécie, desde 2009 vem sendo executado o Plano de Ação Nacional para a Conservação do Lobo-Guará. O projeto tem o apoio de organizações governamentais e não-governamentais, que desenvolvem pesquisas dentro do parque.

O estudo do lobo-guará no cerrado mineiro atualmente conta com dois recursos principais. O primeiro, sem o qual não se faz o segundo, é a captura do animal. Foi instalada no chapadão da serra, dentro da área demarcada do Parque Nacional da Canastra, uma armadilha feita com uma caixa de ferro fechada com uma tela de arame. O equipamento foi desenvolvido pelos pesquisadores do ICMbio e da ONG Pró-Carnívoros. O frango cozido pendurado no ferre serve como isca. No final fundo da plataforma, são colocados bacon e sardinha com bastante óleo para fixar o cheiro.

O faro do lobo-guará é 200 vezes melhor do que o dos humanos e muito mais apurado em relação ao cachorro. Ele consegue sentir o aroma dos alimentos na armadilha a sete quilômetros de distância. Ao mexer nas iscas, a tampa da gaiola cai imediatamente.

Os pesquisadores trabalham com 12 armadilhas, que são colocadas dentro e fora do parque. Não é fácil pegar o lobo. É feita uma captura só depois de 20 tentativas. O objetivo principal de uma das capturas foi a colocação de uma coleira que tem um radiotransmissor. O aparelho vai acompanhar todos os movimentos do animal.

Com muita calma para não aumentar o estresse, o técnico Valdomiro Lemos e o veterinário Ricardo Arrais se aproximaram para examinar o animal, que tem temperamento de paz. Mas como qualquer outro animal, um lobo-guará também reage quando se sente acuado.

Seguindo um protocolo científico internacional de bem-estar em situações de captura, o veterinário aplicou uma anestesia. O método é menos agressivo do que a tranquilização com dardos, por exemplo. Nada que possa causar ferimento fica preso ao corpo.

Quando a sedação se completa o animal é transferido para o topo da gaiola e recebe um gel para lubrificar os olhos. Anestesiado, ele para de piscar. Ele também recebe um tampão nos ouvidos e uma venda. Estímulos externos podem encurtar o entorpecimento. Já no primeiro item da longa lista de itens a ser investigada, há uma surpresa. Não se trata de um lobo, como pensado no início. A loba foi batizada de Francisca

A pelagem do lobo-guará é dourada com aqueles tons de vermelho de fim de tarde. O nome guará vem dos índios e significa justamente vermelho. A cor não é à toa. Com o dourado e vermelho, a presença do lobo se mistura com a paisagem, o que aumenta a chance de vida do animal.

A Francisca é escrutinada de ponta a ponta. Ela tem dentes em boas condições, idade estimada em cerca de três anos, 23 quilos e 83 centímetros de altura da cernelha. Do rabo ao focinho, a Francisca mede 1,69 metro. A orelha por dentro, embaixo do pescoço e a ponta da cauda são brancos. As pernas que lhe permitem subir muito mais rápido a montanha calçam meias pretas. A almofadinha da pata tem dedos unidos.

Também é feita a coleta das fezes e dos carrapatos que parasitam não só o guará como também outros carnívoros do parque. Por fim, Francisca recebe um brinco de identificação e o colar transmissor, que foi desenvolvido especialmente para o lobo-guará.

Depois de 1h30 do exame, Francisca já está recuperada. Ela sonda o ambiente, e parecendo certa para onde ir, dá um passo firme e parte num galope decidido até sumir no capim alto. Mas Francisca rejeitou o colar. Ela ficou um tempo se debatendo e foi embora mordiscando o radiotransmissor até ficar sem o aparelho. Esse foi o primeiro caso de rejeição eletrônico registrado pelos pesquisadores. A equipe passou vários dias vasculhando o parque, mas apenas meses depois o aparelho foi encontrado em uma moita. O aparelho foi enviado aos Estados Unidos para reparos.

Ao todo, são 58 animas com os passos acompanhados por satélite. No primeiro balanço dos registros mostra uma movimentação interessante. Há lobos que circulam apenas dentro do parque, tem aqueles que só andam pelas fazendas envolta e o terceiro grupo que perambula tanto pelas áreas de conservação como pelas de produção agropecuária. O levantamento de saúde concluiu que o nível de estresse dos lobos de fora é muito mais alto em relação aos lobos que vivem no parque. Também é grande a incidência de doenças transmitidas pelo cão doméstico. A esperança é que as pesquisas incentivem novas políticas de convivência para ao menos reduzir as agressões ao lobo-guará.

A experiência realizada na Serra da Canastra pode servir de exemplo para quem observa a galinha do vizinho. Esse um passo raro que se dá para preservar a natureza, respeitando-se a cultura local.

Como parte de um trabalho de conscientização, 350 proprietários do entorno do parque estão recebendo gratuitamente um livro feito pelo pesquisador Rogerio Cunha e pelo fotógrafo Adriano Gambarini. A publicação é estudo científico, mas de leitura fácil e agradável que também estará à venda para o público. Parte da renda será destinada ao projeto de conservação do lobo-guará.